Dane-se a Política

Livro e Café

Análise do site literário sobre um conto clássico que reflete a decepção com a política, Objetos Sólidos de Virginia Woolf.

Virginia

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Ingênua

Acredito que exista, há décadas, um certo comportamento de mídia impregnado, doentio, que joga um contra o outro, quando a verdadeira forma de evoluir é
através do trabalho em grupo. Ninguém avança ou consegue trabalhar com qualidade individualmente, as pessoas estão conectadas umas com as outras.
Mas, além disso, existiria algum interesse obscuro em diminuir as mulheres, em desdenhar seus anseios e necessidades? Seria um discurso direitista? Essa merda está aí desde sempre, esse cinismo maquiavélico, pontualíssimo, mesmo que eu finja ignorar.
Foi um dos motivos de eu já ter pirado e resolvido frequentar o psiquiatra, a pressão, a tortura psicológica, invisível. A sensação de impotência que insinua que nós somos apenas filhas ou esposas, sem juízo e sem razão.
Simplesmente adquiri uma consciência maior desse menosprezo por nossas decisões, avanços, méritos, idoneidade, no último ano da faculdade, mas essa nhaca sempre atravessou a minha vida,

de uma ou outra forma.

Talvez se eu tivesse um pai vivo ou um pai influente, ou uma vida de beata, as coisas acontecessem de maneira diferente. Em tons pastéis. Sinal que incomodo, isso é ótimo, não vim ao mundo para ser gado, massa de manobra, manipulável, ingênua.
O contraponto é ter a sorte de encontrar amigos que não perpetuam esse desprezo,  essa máquina diluída de calar as mulheres.

Doroteia

Ela conservava um baú aos pés da cama de casal. Costume antigo. Era comum encontrar lençóis, cobertores, toalhas limpas, fronhas e colchas na caixa de madeira, forrada com couro, apoiada na extremidade da cama. Nós, as crianças da casa, retirávamos tudo e fingíamos que era um caixão funerário em estranhas histórias que inventávamos sobre mortos-vivos.

Às vezes, sinto que algumas épocas vivem dentro de mim. São dias inteiros com lembranças na sequência, os horários da tarde, as brincadeiras infantis, o que aconteceu depois e porquê.

Existem objetos que parecem romper os limites do tempo. Nos observam geração após geração, como o velho ferro com braseiro, o rádio a válvula ou o baú da Doroteia. Nunca foi necessário saber o que todas as pessoas guardavam dentro de seus baús. Basta saber que os baús continuam ainda hoje, por aí, despertando nostalgia de épocas passadas. A participar do cenário de histórias talvez.

Os seres humanos sentem frio de dentro para fora também, arrepios na alma. Saudade, talvez interesse pelo passado.

Enquanto brincávamos, Doroteia fazia cachos com amônia num permanente em bobs médios, pintava de loiro o cabelo. Unhas vermelhas, fumava cigarros de filtro branco, usava delineador azul. Moderna Doroteia, cheia de vida e com um olhar de desilusão.

Era casada com um marido muito quieto, quase mudo, que não conversava com crianças. A sua casa era sempre organizada com abundância de enfeites, laços de fita em cortinas com duas camadas, paninhos de crochê, frutas de resina para enfeitar a mesa, rendas sobre as janelas da cozinha.

Nunca mais soube o que aconteceu com aquelas pessoas, crianças, adultos ou bichos de estimação conhecidos. Morreram todos os poodles infernais com os quais convivi na minha infância? A lembrança traz recortes, brincadeiras esquecidas, mãe-da-rua, tardes inteiras para jogar videogame e rabiscar o tênis com canetinha.

O suicídio da “classe média”

Uma análise da classe média brasileira.

Blog da Boitempo

Por Maurilio Lima Botelho.

Quase metade dos empregos no Brasil duram menos de um ano. Os brasileiros acima de 10 anos que recebem até 2 salários perfazem mais de dois terços da “população produtiva”. Cerca de 10% dos contratos de trabalho no Brasil são temporários (até 3 meses) e sua participação têm crescido nos últimos anos. Do total de brasileiros “empregados” – o que exclui 13 milhões de desempregados e quase 25 milhões de “trabalhadores por conta própria” –, 25% não tem carteira assinada. Entre os que têm contrato, mais de 20% já estão em empresas terceirizadas. Nas empresas terceirizadas, quase nenhum emprego ultrapassa dois anos. 

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Carla e Ernesto

Fazia tempo, mas a depressão foi longa, forte, com medicamentos. Talvez aqueles remédios todos, seriam como querer morrer um pouco.  Ficou frio sentir o coração sem vida. Cansaço. Carla precisava de algo, sem saber como sair da situação, era evidente.

Casara-se com o Ernesto. Era pedir demais, um pouco de privacidade, sento ali meio distante, mas é só por alguns minutos ele vem puxando a cadeira ao lado. Mudo de lugar, a cena se repete. E se repete de novo. Assim era o Ernesto, a pessoa que divide o teto, com minha amiga interiorana Carla.

Os teatros, a desordem dos lugares onde perambulei; sinto constrangimento perto deles, desse casal.

“Nunca vou me casar com ela, a gente nunca vai se casar”. Desnecessário compartilhar essa informação comigo. Eu não perguntei.

O tempo parece suspenso assim. Entre os copos de plástico, mesas de plástico, amigos ‘de sempre’, encenações, insinuações, caras e bocas.

Veneno guardado, provocações sem sentido, a tal, a esposa, era uma moça romântica, pouco dada a discutir qualquer assunto. Bonita, linda aliás, mas não era esposa, prefiro chamar desse jeito por consideração. Conservava um aspecto jovem, rugas displicentes, acrescidos de um irritante ar servil e artesanatos indígenas que sempre usou. A festa seguia em frente, entre conversas e situações ridículas.

“Não sei como consegue viver naquela cidade horrorosa, suja, violenta. Já nem lembro mais, nem sei como pude morar lá, agradeço todos os dias pela vida calma e perfeita que nós levamos no interior. Espaço. Saúde. Qualidade de vida”.

“Eu gosto da minha vida em São Paulo. Quando me afasto, sinto falta daquelas pessoas loucas”.

“Um dia você cansa, Lurdinha”, responderam todos os convidados em uníssono, como se participassem de um coral gospel.

A azia se misturava com a fritura das coxinhas, o guaraná, a cerveja, o óleo grudando nos dedos, enxugados na barra da calça jeans. Tudo bem que não quisesse romper completamente certas amizades, mas me magoa o fato de não ser tratada com respeito. Ao contrário, escuto piadas antigas.

Pensava no barulho dos aviões cruzando o céu, na sujeira, ruas, o cheiro dos mendigos que dormem ao relento, nas buzinas das seis da tarde, a plantação de luzes nos prédios. E essa daí? Esse colarzinho hippie até hoje, por favor. Dez anos de colar.

“Nesta data querida…”.

Alguém puxou lá do outro lado.

Parece que vai acabar rápido o tormento.

Havia uns enfeites, quase qualquer coisa feita de papel colorido, um aniversário afinal, trinta anos de vida. Notei um cartão de lembrança, preso num arame sobre as mesas, tão singelo, preto e branco. Pouca gente apareceu por lá, o problema foi justamente a coincidência de estarem na mesma festa o competitivo, arqueológico e individualista casal.

Foi tranquilo voltar depois desse engulho, olhar talvez hora inteira a tevê apagada, imaginar essas figuras. Seus defeitos, seus interesses. Agora já não é tão estranho que minha paciência tenha sido sempre tão curta quando se tratava do Ernesto.

Alguns anos depois, soube, separaram-se de verdade, quer dizer, terminaram o longo namoro. Acredito que era possível sentir entre o casal o enferrujado debaixo da panela, a poeira nos veios da louça, uma alça frouxa talvez, o botão que faltava na camisa – e foi mudado do pulso para gola, aquela almofada rasgada, o lençol gasto com bolinhas de tanto lavar. Nessas coisas todas havia um pouco da Carla. Ela era o problema, o desgaste, a situação ordinária.

Era possível pressentir nas palavras enviesadas que recebia.

Ele decidiu depois de muito refletir, voltar a morar com um velho e conhecido amigo. Um amigo que sempre acompanhava a rotina do casal. Dizem quase todos por aí, os que conhecem, que é uma tentativa de assumir a homossexualidade, a verdadeira paixão, o amigo de sempre, de antes, de tanto tempo. Inseparáveis, querem morar sempre perto.

Quem é esse amigo do casal? Prefiro não comentar, mas aos olhos de Ernesto, pareceu sempre tão mais inteligente que Carla, mais bem-humorado que Carla, mais preparado. Forte.

Ela hoje mora na Itália, desistiu do interior, foi estudar moda, fotografia e um empresário interessou-se por seus cliques, divide o apartamento em que vive com uma garota sueca. Matou um poodle a pauladas, dia desses, num ataque de fúria. Foi preciso mesmo tantos anos para perceber o absurdo.