Conforto emocional

Eu nasci dia 24, em agosto, há mais de três décadas. Sempre escrevi diários. O primeiro nem tenho recordação exata, talvez com oito anos. Então, a partir dos nove, comecei a levar à sério; registrava sequência de dias, brincadeiras, amigos, histórias de escola, dos vizinhos. Foi assim até os treze. Entre canetas coloridas e páginas numeradas pela data, por ano, com colagem de papel de bala, embalagem de picolé que eu gostava, adesivos fofos. Não foi difícil notar, era preciso que acontecesse algo fora do comum para o texto ficar bom. Um dia briguei com minha mãe e rasguei tudo. Acredito que devo ter escrito sobre algo que envolvia beijo na boca.

trecho do diário emocional, dezembro 2015.

 

Policarpo

Logo na saída, Antunes recebia os cumprimentos dos amigos, um grupo de mulheres comentava “Gostei muito”, a amiga responde “Amei, amei, amei, amei”, depois de alguns segundos de silêncio, para encerrar a euforia a primeira diz “Que final triste!”. Este burburinho intenso esclarece se tratar de um relato de outra época. Onde as pessoas sentiam-se de certa forma enfeitiçadas por determinadas montagens teatrais e próximas o suficiente do diretor e dos atores para conversar após a apresentação.

Em particular, o que chamou a atenção foram as inúmeras trocas de figurino, a agilidade com que todos conseguem realizar essa coreografia acelerada, precisa. A maior parte dos atores parecia nervosa, o que é absolutamente natural e perdoável, por ser o primeiro dia. O que incomodou de verdade foi a expressão de monotonia de alguns atores nas suas interpretações fazendo parecer repetitivas algumas passagens. Por se tratar de uma peça realizada dentro do método antunes, portanto menos dinâmica que as montagens experimentais contemporâneas, mais longa, essa sensação acaba por ser um dos riscos que a proposta está sujeita a enfrentar.

Muitas técnicas se misturam no palco, inclusive sapateado, sendo que a sequência do hino nacional no dia da estreia foi ovacionada, aplauso merecido, em cena aberta, tão raro de se ver. O ponto forte e positivo da peça é um viés caricatural engraçado, ele foge aos tons dramáticos do universo rodriguiano com o qual o diretor havia trabalhado nas montagens anteriores.

A cena mais deliciosa é a do tango onde duas personagens, uma delas de vestido vermelho curto, atravessam o palco dançando, sem qualquer conexão com o enredo, é do nada mesmo que surgem. Talvez na intenção de relativizar a seriedade da peça. Abono ser a melhor parte.

caderno velho de anotações, março 2010.

Ingênua

Acredito que exista, há décadas, um certo comportamento de mídia impregnado, doentio, que joga um contra o outro, quando a verdadeira forma de evoluir é
através do trabalho em grupo. Ninguém avança ou consegue trabalhar com qualidade individualmente, as pessoas estão conectadas umas com as outras.
Mas, além disso, existiria algum interesse obscuro em diminuir as mulheres, em desdenhar seus anseios e necessidades? Seria um discurso direitista? Essa merda está aí desde sempre, esse cinismo maquiavélico, pontualíssimo, mesmo que eu finja ignorar.
Foi um dos motivos de eu já ter pirado e resolvido frequentar o psiquiatra, a pressão, a tortura psicológica, invisível. A sensação de impotência que insinua que nós somos apenas filhas ou esposas, sem juízo e sem razão.
Simplesmente adquiri uma consciência maior desse menosprezo por nossas decisões, avanços, méritos, idoneidade, no último ano da faculdade, mas essa nhaca sempre atravessou a minha vida,

de uma ou outra forma.

Talvez se eu tivesse um pai vivo ou um pai influente, ou uma vida de beata, as coisas acontecessem de maneira diferente. Em tons pastéis. Sinal que incomodo, isso é ótimo, não vim ao mundo para ser gado, massa de manobra, manipulável, ingênua.
O contraponto é ter a sorte de encontrar amigos que não perpetuam esse desprezo,  essa máquina diluída de calar as mulheres.

Doroteia

Ela conservava um baú aos pés da cama de casal. Costume antigo. Era comum encontrar lençóis, cobertores, toalhas limpas, fronhas e colchas na caixa de madeira, forrada com couro, apoiada na extremidade da cama. Nós, as crianças da casa, retirávamos tudo e fingíamos que era um caixão funerário em estranhas histórias que inventávamos sobre mortos-vivos.

Às vezes, sinto que algumas épocas vivem dentro de mim. São dias inteiros com lembranças na sequência, os horários da tarde, as brincadeiras infantis, o que aconteceu depois e porquê.

Existem objetos que parecem romper os limites do tempo. Nos observam geração após geração, como o velho ferro com braseiro, o rádio a válvula ou o baú da Doroteia. Nunca foi necessário saber o que todas as pessoas guardavam dentro de seus baús. Basta saber que os baús continuam ainda hoje, por aí, despertando nostalgia de épocas passadas. A participar do cenário de histórias talvez.

Os seres humanos sentem frio de dentro para fora também, arrepios na alma. Saudade, talvez interesse pelo passado.

Enquanto brincávamos, Doroteia fazia cachos com amônia num permanente em bobs médios, pintava de loiro o cabelo. Unhas vermelhas, fumava cigarros de filtro branco, usava delineador azul. Moderna Doroteia, cheia de vida e com um olhar de desilusão.

Era casada com um marido muito quieto, quase mudo, que não conversava com crianças. A sua casa era sempre organizada com abundância de enfeites, laços de fita em cortinas com duas camadas, paninhos de crochê, frutas de resina para enfeitar a mesa, rendas sobre as janelas da cozinha.

Nunca mais soube o que aconteceu com aquelas pessoas, crianças, adultos ou bichos de estimação conhecidos. Morreram todos os poodles infernais com os quais convivi na minha infância? A lembrança traz recortes, brincadeiras esquecidas, mãe-da-rua, tardes inteiras para jogar videogame e rabiscar o tênis com canetinha.