homenagem póstuma

Intuí ele por perto. Sinto falta, até hoje; se eu viver até os cem anos sentirei falta dele até os cem anos, porque esse é o tipo de coisa que nos faz eternamente falta. Sem poder ser preenchido ou substituído. Sempre tive pena das pessoas que não conviveram com seus pais ou preferiam não ter convivido. Vi duas pessoas vestindo roupas iguais as dele nas ruas, no começo demorei a entender porque uma lembrança tão vívida surgia, assim, na minha frente. Ele tinha uma calça igual a essa, pensei. Depois vi uma das combinações que ele mais adorava fazer. Era bancário, vestia-se de acordo. Na época em que trabalhou era obrigatório usar gravata. Uma calça marrom num tom mais claro, mas que não chega a ser bege, quase cinza, essa cor, comum no vestuário masculino, combinada com uma camisa de listras muito finas e verticais. Igualzinho às peças de roupa que ele usava. Sem ficar de fora sequer a camisetinha branca básica que vai por baixo. Dá vontade de chorar ver e lembrar disso. Lembro das camisas dele. E lembro da forma como ele me abraçava quando tentava me acalmar. Nas minhas crises de choro. Nos meus acessos de raiva.

[…]

Trecho de crônica, agosto 2018.

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