Pensamentos assim meio sinistros

Medo. Agora quase todo dia era assim, fixava os olhos no vazio da parede e sentia medo desse mundo cheio de gente absurda, gente que se odeia aberta ou veladamente, sentia medo de antigos namorados psicopatas. Mesmo os que a gente nem desconfia. Teve um desses que sacaneou completamente um último relacionamento, ligava, atormentava o rapaz, enquanto estava envolvida, só para depois, quando já solteira, chamar-me de velha. Agora era possível sentir-se livre e senhoril. Velha! E com desprezo.

Velha aos vinte e cinco anos de idade.

Esse garoto sumiu, pronto, sumiu. Só quis atrapalhar. Pelo menos me obrigou a enxergar o descompasso com o namorado em questão. A diferença, um abismo. Por difícil que fosse admitir, talvez por comodismo, caso insistisse naquilo o resultado invariável: infelicidade. Provavelmente, o arrependimento se infiltraria em uma vida longe daqui, num outro país, gelado, distante. Sozinha. Medo. Casada e distante de todos que conhecia.

Esse mundo é bizarro, agora mesmo passam pela rua duas garotas numa cantoria funk. Com uma voz afetadamente fútil, irritante, socorro. Onde posso encontrar algum alento?

Torturas musicais na capital, essas jamais terão fim. Cada fim de semana que passa alguém consegue superar o baixo nível e indiscrição do anterior, na escolha musical.

Medo de homens que ficam pelas esquinas desses bares mexendo com as garotas que passam. Medo de peruas histéricas e agressivas.  Sinto medo de velhinhas insuspeitas que assaltam em restaurantes. Ser assaltada é sempre um risco, já aconteceu tantas vezes, agora passou a ser quase certo. Cinco, sete vezes, perdi as contas. Gatunos levaram o som do carro, dinheiro, os documentos, a bolsa de pano colorida, a bolsa cinza de couro sintético, o casaco xadrez marrom, cartão de crédito e tranquilidade de caminhar pela rua. Nesses dias, a tristeza parecia assim um lugar sombrio, ninguém consegue frequentar, tem gosto de solidão e de soluço. E a mente humana ainda resolve ter a tendência indecente de emendar lembranças péssimas todas juntas num só lugar.

Sufocava, mas isso passa. Passa nem que seja à custa de quatro ou mais taças de vinho tinto. Essa solidão é recorrente. Em uma manhã durante a semana, quase horário de almoço, ao sair de um compromisso, esperava fumando um dos muitos cigarros do dia, frente à estação do metrô, óculos escuros, pensava, fumava. Foi quando chegou um moribundo bêbado ao meu lado, em frente, bem perto e soltou um gemido como se fosse um cachorro chorando: “Uhuoííímmm”, um barulho longo. A idêntica sensação desagradável, imediata. Medo. Mal escapou o último trago na cara do sujeito, cigarro no chão, correr pelas escadas rolantes.

– Por favor, moça, você tem cinquenta centavos para eu comprar pão?

Uma garota humilde, sobrancelha alinhada, boné na cabeça, pedia. Era segunda-feira enquanto subia maquiada a Brigadeiro Luís Antônio à noite, apressada, na tentativa de alcançar algum ônibus por volta das onze que, pelo menos, passasse próximo à Rua Augusta. Queria dançar, aliviar a mente. Menos de três segundos, rápido, muito rápido, foi o que a ladra maldita levou para puxar a carteira inteira e sair em disparada avenida abaixo.

– Meus documentos, meus documentos! Dá trabalho tirar outros, deixa meus documentos!

A cena foi incrível. Uma revoada de papeis contra o vento, e junto, uma carteira rasgada, bem no meio da movimentada avenida. Chorava de raiva enquanto os carros desviavam, apanhei de joelhos o que sobrou, por exemplo, o RG.

Indignada, estupefata de tanta agressão, já no posto de polícia, mais essa,

– São comuns assaltos nessa região. Senhorita?

– Sim. Solteira.

Boné branco, havaianas pretas, cretina.

-Você teria alguém para te acompanhar até em casa?

Com erro de concordância, como é comum, perguntava o policial.

-Não tenho.

-Pai, irmão?

-Ninguém.

Cartões bloqueados no sistema vinte e quatro horas, trêmula ao celular, mas, por sorte, havia o dinheiro do metrô entre as moedas caídas na bolsa.

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