Carla e Ernesto

Fazia tempo, mas a depressão foi longa, forte, com medicamentos. Talvez aqueles remédios todos, seriam como querer morrer um pouco.  Ficou frio sentir o coração sem vida. Cansaço. Carla precisava de algo, sem saber como sair da situação, era evidente.

Casara-se com o Ernesto. Era pedir demais, um pouco de privacidade, sento ali meio distante, mas é só por alguns minutos ele vem puxando a cadeira ao lado. Mudo de lugar, a cena se repete. E se repete de novo. Assim era o Ernesto, a pessoa que divide o teto, com minha amiga interiorana Carla.

Os teatros, a desordem dos lugares onde perambulei; sinto constrangimento perto deles, desse casal.

“Nunca vou me casar com ela, a gente nunca vai se casar”. Desnecessário compartilhar essa informação comigo. Eu não perguntei.

O tempo parece suspenso assim. Entre os copos de plástico, mesas de plástico, amigos ‘de sempre’, encenações, insinuações, caras e bocas.

Veneno guardado, provocações sem sentido, a tal, a esposa, era uma moça romântica, pouco dada a discutir qualquer assunto. Bonita, linda aliás, mas não era esposa, prefiro chamar desse jeito por consideração. Conservava um aspecto jovem, rugas displicentes, acrescidos de um irritante ar servil e artesanatos indígenas que sempre usou. A festa seguia em frente, entre conversas e situações ridículas.

“Não sei como consegue viver naquela cidade horrorosa, suja, violenta. Já nem lembro mais, nem sei como pude morar lá, agradeço todos os dias pela vida calma e perfeita que nós levamos no interior. Espaço. Saúde. Qualidade de vida”.

“Eu gosto da minha vida em São Paulo. Quando me afasto, sinto falta daquelas pessoas loucas”.

“Um dia você cansa, Lurdinha”, responderam todos os convidados em uníssono, como se participassem de um coral gospel.

A azia se misturava com a fritura das coxinhas, o guaraná, a cerveja, o óleo grudando nos dedos, enxugados na barra da calça jeans. Tudo bem que não quisesse romper completamente certas amizades, mas me magoa o fato de não ser tratada com respeito. Ao contrário, escuto piadas antigas.

Pensava no barulho dos aviões cruzando o céu, na sujeira, ruas, o cheiro dos mendigos que dormem ao relento, nas buzinas das seis da tarde, a plantação de luzes nos prédios. E essa daí? Esse colarzinho hippie até hoje, por favor. Dez anos de colar.

“Nesta data querida…”.

Alguém puxou lá do outro lado.

Parece que vai acabar rápido o tormento.

Havia uns enfeites, quase qualquer coisa feita de papel colorido, um aniversário afinal, trinta anos de vida. Notei um cartão de lembrança, preso num arame sobre as mesas, tão singelo, preto e branco. Pouca gente apareceu por lá, o problema foi justamente a coincidência de estarem na mesma festa o competitivo, arqueológico e individualista casal.

Foi tranquilo voltar depois desse engulho, olhar talvez hora inteira a tevê apagada, imaginar essas figuras. Seus defeitos, seus interesses. Agora já não é tão estranho que minha paciência tenha sido sempre tão curta quando se tratava do Ernesto.

Alguns anos depois, soube, separaram-se de verdade, quer dizer, terminaram o longo namoro. Acredito que era possível sentir entre o casal o enferrujado debaixo da panela, a poeira nos veios da louça, uma alça frouxa talvez, o botão que faltava na camisa – e foi mudado do pulso para gola, aquela almofada rasgada, o lençol gasto com bolinhas de tanto lavar. Nessas coisas todas havia um pouco da Carla. Ela era o problema, o desgaste, a situação ordinária.

Era possível pressentir nas palavras enviesadas que recebia.

Ele decidiu depois de muito refletir, voltar a morar com um velho e conhecido amigo. Um amigo que sempre acompanhava a rotina do casal. Dizem quase todos por aí, os que conhecem, que é uma tentativa de assumir a homossexualidade, a verdadeira paixão, o amigo de sempre, de antes, de tanto tempo. Inseparáveis, querem morar sempre perto.

Quem é esse amigo do casal? Prefiro não comentar, mas aos olhos de Ernesto, pareceu sempre tão mais inteligente que Carla, mais bem-humorado que Carla, mais preparado. Forte.

Ela hoje mora na Itália, desistiu do interior, foi estudar moda, fotografia e um empresário interessou-se por seus cliques, divide o apartamento em que vive com uma garota sueca. Matou um poodle a pauladas, dia desses, num ataque de fúria. Foi preciso mesmo tantos anos para perceber o absurdo.

 

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