O Amor e o Coentro

Refleti sobre muitas coisas. Minha ojeriza por coentro que naquele dia pareceu insignificante. Ninguém é perfeito, já disseram. Talvez a vida comece a surgir amena e sutil depois do que foi dito. Às vezes é preciso falar sobre o amor. Sobre nós que nos amamos ou imaginamos nos amar. Como definir, ao certo? Nunca nos percebemos um ao outro (declaradamente, não). Se eu, ao menos, ostentasse lembrança do beijo, seria mais fácil, menos obscuro, imaginar o que está por vir.

É como naquela poesia do Oswald, tenho ciúme das pessoas que ainda não o conheceram e não pudem mesurar o calafrio, o abismo, a vontade. Foi um jantar agradável, a última vez, em um final de tarde qualquer. Não combinamos nada, apenas nos encontramos por ocasião do novo livro e decidimos comer depois. Fui cruel: não se trata de uma tarde qualquer, afinal, o mundo parecia mais doce e conversávamos. Existia a fome e alegria de estarmos juntos enfim. E havia o coentro,  o muro, a barreira da impossibilidade, nós queríamos que não existisse, entretanto ali está e nos impede. Incomoda. Se dissolve naquilo que desejamos experimentar. Só notei o sabor na última mordida do taco, misturávamos conversas e sentimentos. Seguimos lentamente juntos até o metrô, as ruas estavam molhadas de uma chuva incerta, rápida, evaporava a sensação de concreto morno molhado.

 

Depois disso, da tarde em que nos encontramos sem querer e sem se conter, sem a ousadia de tentar, mas com vontade, a tal folha de odor peculiar passou a invadir os pratos mais interessantes, a me desafiar. Entrou pelo cotidiano da cidade. Como se magicamente passasse a materializar-se, fazia com que eu pensasse imediatamente em você. A princípio invadiu um prato de rosbife, no dia seguinte, o tutu de feijão à mineira, mais adiante, pulou dentro do frango caipira.

 

Na realidade, a culpa foi minha desde o início. Quando recusei abrir mão de mim e aceitar o abraço mais desejoso. Aceitar um copo de chá. Era preciso se afastar. Por que não o coentro?  Por que não desenvolver esse desejo? Não era proibido.

 

Decidimos então nos encontrar, sem ser por acaso, durante o dia. Arrepios na nuca. Vi um casal antes do horário em que combinamos, estive comovida por uns minutos observando os dois, ele usava barba e levava ela de mãos dadas. Na mão esquerda carregava uma sacola com legumes e temperos, passaram por mim. Aí você chegou. E nos beijamos. Eu chorei um pouco, mas foi um choro de alegria e comoção.

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