Vinte e poucos anos

Uma casa dividida, armários divididos, cada um com seu lado, suas gavetas. A mulher, geralmente, ocupava o lado direito dos móveis em geral: o lado direito da cama, das gavetas, da estante no escritório, das prateleiras da sala de estar. Só ocupava os lados à direita, sempre. Se abríssemos o armário, assim veríamos: camisas, jaquetas, ternos e gravatas nas duas portas à esquerda; vestidos, sandálias, saias e rendas à direita. Nas prateleiras da sala de estar, a sequência se repetia: brasões de futebol e uma coleção de canecos de chopp ocupavam a parte à esquerda; porcelanas, taças e bibelôs ficavam nas prateleiras à direita, mas as gavetas da estante do escritório eram um caso específico.

Lá, em geral, ficavam livros, papéis, burocracia de todos os sabores, documentos, receitas médicas, enciclopédias, ferramentas e… Esmaltes! Exato. O lado direito das gavetas do móvel de escritório guardava esmaltes e todo aparato para manicurar as unhas. Lixa, acetona, trim, alicate, base e multicoloridos potes de vidro. Foi a função que encontrou para o nicho, já que ela nunca resolvia esse tipo de questão, sequer entendia para quê tanto papel. Um dia, depois de uma briga daquelas entre o casal, a mulher ameaçou jogar tudo fora, foi um apocalipse. “Você é uma anta! Ficou maluca?”, respondeu entre os dentes da prótese.

O senhor, pai de família, passava várias horas trancafiado ali rodeado daqueles objetos, talvez por isso a briga, alguns dias inclusive chegava a almoçar no local. “Fora do convívio familiar, que horror!”, entre promissórias, calculadora, prato de comida no colo. Nunca foi a parte mais problemática, sim a simples dinâmica das coisas.

O pior inferno eram os diálogos, uma verdadeira batalha naval, guerra de pequenos conflitos, um desafiava o outro, repetidas, repetidas vezes, para depois aconchegarem-se no mesmo sofá. Onde ela se sentava do lado direito. Coisa de doidos. Romance era coisa espaçada, de datas especiais, talvez nem isso, o peso da idade refletia nos cabelos brancos, em rugas e filhos crescidos. O filho mais velho e promissor já cursava a faculdade e morava com colegas, o mais novo, de dezenove, preferiu mesmo ficar em casa para ajudar nos negócios da família.

O esposo passava suas horas tranquilas cuidando do jardim, comprou até novas ferramentas, uma enxada, uma tesoura, para aparar a grama e novas espécies de begônia em tons variados; domingos inteiros entretido pela manhã, sob o sol, cuidando meticulosamente de remover trevos desordenados. Matar formigas.

Enquanto a senhora, antiga trabalhadora de pequenas funções, aposentada, cuidava de testar na cozinha novas receitas para o Natal que se aproxima – mesmo ainda estando no mês de agosto, ele se aproxima. Compotas, bolos complexos, batatas rechedas, pães em geral; em alguns meses também se ocupava de testar costuras. Toalhas de mesa, peças simples, pijamas. Nos meses em que o Natal não se aproxima.

A convivência era arrastada, um tédio insistente, uma conversa difícil. Mesmo sabendo de tudo isso, o quê mais num mundo vasto, cheio de horrores, o quê mais poderiam fazer? Ambos velhos, cansados, no pior dos casos acolhiam um ao outro na velhice – e que importa se um deles não conseguia lavar roupa, cozinhar ou fazer compras sozinho e para a outra parte uma escritura mais parecia um tratado em chinês.

Traições haviam, nunca o suficiente para sufocar o tédio, subterraneamente camufladas, mas existiam. Ela se apegava à religião para conter seus impulsos, missas, grupos de oração com amigas, obras de caridade. Ele recorria ao sexo pago, sob a tola justificativa de preservar a família da exposição. Seria esse equilíbrio rompido, após tantos anos, frágil, desbotado? Qualquer pessoa lúcida observaria uma agressão constante para os dois. Se é que sobrevivessem separados, superando as lacunas de décadas, funções e objetos domésticos criteriosamente separados, mundos separados, discursos separados.

– Não posso me separar de você porque é o único homem que entende direito as coisas que digo. Mesmo minhas amigas, primos, pouco se importam.

– Não posso me separar porque, por que mesmo? Detestaria lavar minhas próprias roupas, não sei cozinhar e sinto frio nos pés, à noite.

Em julho do próximo ano aconteceria uma grande festa, a festa, Bodas de Prata, a maior de todas, até o padre celebraria. A fofoca na cozinha corria solta entre conhecidos e convidados do raro acontecimento, “Fulano de Tal é de boa família”. “Disseram que a vizinha da casa esverdeada separou do marido, a essa altura da vida, coitada, dois filhos para criar, o marido fugiu com a secretária”. Em um verão antigo o casal quase separou, foi muito, muito antes. Ele chegou a se abrigar num hotel, o pobre senhor. Sem café fresco, sem comida na mesa, desistiu. Fui analista de um estranho casal, que morava lá em casa, por décadas, um senhor e uma senhora.

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