Conto

É preciso aprender sueco Essas coisas sempre acontecem num jardim. A função do passeio era recolher objetos, segui contornando alamedas, longe das pessoas em trajes de exercício, perto da árvores. Pedaços pesados, tocos de tronco se esmigalham, solo enfim molhado com folhas caídas de eucalipto dando a impressão de casca de banana.  Assim como o caroço de pêssego, um pequeno cérebro. Há um tapete de flores quase-azul do ipê, de onde recolho um punhado e guardo no saco de pano. Recolho um pedaço grande de casca, um toco de galho disforme, retorcido, um ramo de pinheiro. O moleque deixou para trás a bola, plástico azul, bem do lado do escorrega, entre os montes de areia. Fica muito melhor aí onde ele deixou, raciocino, não faz sentido na minha coleção. Já no ponto oposto do lago, lembro e começo a cantar aquela música do Ray Charles e do Willie Nelson onde ele roucamente diz “He looked down into her bronw eyes and saied, Say a prayer for me”, com emoção, para que a música se misturasse à paisagem. Sete anjos espanhóis. Sento na mureta que dividia um espaço com bancos. Recontei a coleção. Pensei naquele galho retorcido fazendo as vezes de enfeite natural.  No caminho de volta, logo atrás de uma pedra, com o tamanho de um sabiá, avistei um homenzinho em miniatura. Era desengonçado e vestia xadrez. Parecia pouco se importar com a minha presença, ainda mais, olhava para a cerca viva e esticava um monólogo reflexivo, pude reconhecer falava em sueco, todas aquelas palavras. Quando notou ser observado, encarou, começou a emitir um barulho como uma cigarra e mostrou os dentes pontiagudos. Ele não me assustava, pelo menos não tanto quanto desejava assustar. Indignado com a indiferença, apesar de, naquele momento eu já ter encostado um joelho ao chão para melhor observar, percebi seu rosto oscilando em tons de vermelho, virou-se de costas, começou a cavar a terra e muito rapidamente sumiu num buraco. Diante do susto, permaneço alguns instantes em silêncio, respiração profunda. Essas coisas da natureza não exigem maiores explicações. Com algum esforço, consigo lembrar do caminho de volta, das minhas demandas, das pessoas a praticar seus exercícios rotineiros, algumas delas intrigadas por me ver, assim, assombrada e sentada no que sobrou da grama.

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