O poeta ficou cansado 

Pois não quero mais ser 
Teu arauto. 
Já que todos têm voz, 
por que só eu devo tomar navios 
de rota que não escolhi? 
Por que não gritas, Tu mesmo, 
a miraculosa trama dos teares, 
já que Tua voz reboa 
nos quatro cantos do mundo? 
Tudo progrediu na Terra 
e insistes em caixeiros-viajantes 
de porta em porta, a cavalo! 
Olha aqui, cidadão, 
repara, minha senhora, 
neste canivete mágico: 
corta, saca e fura, 
é um faqueiro completo! 
Ó Deus, 
me deixa trabalhar na cozinha, 
nem vendedor nem escrivão, 
me deixa fazer Teu pão. 
Filha, diz-me o Senhor, 
eu só como palavras. 

Adélia Prado, Oráculos de maio. 

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