A resposta veio por acidente

Só o fato de chegar na rua, num local de passagem, e parar, já chama atenção de alguns dos curiosos. Mas isso não é suficiente para fazer com que cada passante pare por 50 minutos para ver um espetáculo de palhaço. Quando olho para praça vazia nunca sei o que vai acontecer. Fora de festivais, principalmente, tenho o grande prazer de poder fracassar por completo.

Quando chego peço licença para quem estiver por lá e vou arrumando os objetos para o espetáculo. Coloco uma música baixinha, um pouco mais alto do que se fosse só para mim, e vou abrindo a rede aos poucos. Cumprimento os que estão abertos a um “bom dia”, como se fossem meus vizinhos. Vou assim, de leve…

Para fazer um espetáculo de rua meu primeiro desafio foi este: como me comunicar e fazer as pessoas pararem, no meio de passos que levavam a algum lugar, para assistir um palhaço que fala pouco, quase nada?

A resposta veio por acidente. Afinal, a melhor dramaturgia para um palhaço é a necessidade. Nas primeiras apresentações, não tinha microfone. Resolvi fazer cenas mudas, dando mais voz para o público,  o corpo, o tempo e o jogo entre palhaço e espectador. Quando o microfone veio, sobrou. E como toda sobra, ficou de fora.

Desde então já foram quase dois anos sem microfone. Ocupei a rua de diferentes cidades brasileiras e fui testar a ideia de conseguir fazer um espetáculo com uma linguagem universal em outros países. E assim foi ao extremo – até quem fala grego, sem trocadilhos, compreendeu o palhaço.

Isso está longe de ser mérito meu. O palhaço é um arquétipo. Chegou em todos os lugares muito antes de mim. Só vou lá para (re)lembrar as pessoas de sorrirem.

E o sorriso nesses casos vem com um humor que fala do humano. Ao invés de reafirmar preconceitos, que estamos cansados de saber, os combato e busco exaltar nossas tão belas diferenças. Ao invés de desvalorizá-las, as tais diferenças, o palhaço as exalta. Assim conseguimos rir do que temos em comum. O palhaço se coloca abaixo, para mostrar que podemos rir juntos de nós mesmos.

A RUA virou CIRCO, texto de Rafael de Barros
exercitocontranada.blogspot.com.br

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