sobre a primeira e a única vez que ganhei flores

Eram flores roxas. Uma planta simples, flores de aspecto comum que vinham dentro de um vasinho. Talvez um tom de lilás. O corpo parecia um pequeno cálice, desses de licor, e se abria em pétalas redondas, lilases, rajadas. Muita gente já viu flor como essa, existe em quase todas as lojas. Tinha folhas escuras e nenhum perfume.

Presente do meu então namorado Fernando. Guardei o cartão junto com o esqueletinho de uma flor ressecada pelo tempo, para que não existam dúvidas. Afinal ganhei flores apenas uma vez, mas posso provar. Não, nós não temos mais nenhuma forma de contato, é um nome em uma lista de nomes na rede social. Hoje ele é médico, ocupadíssimo, possui uma clínica. Formou-se também em Fisioterapia, mas quando nós namorávamos, ele era apenas o Fê. Passávamos todos os intervalos das aulas abraçados, diante de um futuro incerto. Meses inteiros assim. Quatro ou cinco meses de namoro, no cartão se lê, numa letra lindíssima (ao contrário do que poderíamos imaginar de um médico): “Que a simplicidade dessas flores possam transmitir um pouquinho do meu carinho e sentimento que sinto por você”.

Meu pleonástico namorado também tocava violão. E não tínhamos permissão para ir a lugar algum desacompanhados de adultos. Adolescentes. Nosso espaço de namoro era o colégio ou os incansáveis churrascos de final de semana. Tudo supervisionado, eu tinha dezessete anos e ele tinha quinze. O mundo todo mudou ao nosso redor, não imagino sequer se caberia algum reencontro, não imagino se conseguiria ter assunto, mas gosto de lembrar daqueles meses como quem lembra de um dia de sol com sabiás-laranjeiras cantando, durante semanas chuvosas. 

Não me lembro porque nós terminamos, uma tolice. Depois disso eu quis voltar, mas ele não quis. Um dia foi a vez de ele tentar voltar, mas dessa vez eu não quis. Tudo isso fazem muitos anos. A última vez que encontrei com ele pessoalmente, ainda não estava na faculdade de Medicina. Hoje já trabalha como médico e imagino que tenha mais intimidade com ratinhos de laboratório do que com folhas de papel sulfite.

Mil novecentos e noventa e nove. O ano em que o mundo poderia acabar, quase todos usavam all star, a Coca-cola lançava o Kuat para fazer concorrência ao Guaraná Antártica, até então, exclusivamente nacional. Usávamos all star porque era o sapato mais barato e durável à disposição. Devia ser coisa de dez reais. Eu nunca escolhia o preto, achava triste e masculino. Podia ser de qualquer outra cor.

Durou mais seis meses, o vasinho com as flores, depois que terminamos. Nunca mais saiu flor. A planta durou mais um tempo. Um ano, acho, só com as folhas num verde escuro.

 

Um comentário em “sobre a primeira e a única vez que ganhei flores”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s