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A Luisa! Fiquei repetindo em silêncio. Nem alta, nem baixa, nem bonita nem feia mas estranha, isto sim, estranha,  com aquele olhar que não se fixava em nada e o vago sorriso nos lábios frios. Por duas vezes tomei-a pelo braço para desviá-la das carretas de bagagens que corriam pela estação.

Detesto trens, disse enquanto deixávamos as sacolas no cabide. Entrou no toalete e sentei-me diante da pequena mesa junto da janela. Quando voltou, sentou-se na outra cadeira e com o trem já em movimento fiquei vendo o seu perfil no vidro, Olha aí, a Luisa. Sua presença tivera o dom de despertar em mim tantas lembranças que eu via agora deslizar assim como um rio profundo, levando na superfície rostos antigos, paisagens, vozes… Fiz perguntas e lembrei alguns episódios tentando fazer com que a conversa girasse em torno da nossa meninice mas Luisa mostrou tamanha indiferença pelo passado que resolvi me calar, ela perdera a infância e agora parecia vagar numa escuridão igual a da noite lá fora.

Acendeu um cigarro me encarou e de repente fez a pergunta.

– Você não viu mais o Francisco?

trecho do conto  “As Cartas” de Lygia F. Telles

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