Metrô

Cruzou o espaço quadrado das portas abertas quando ouviu a campainha já estava dentro do trem segurava o poste vertical, alumínio. Perdeu o olhar solto naquelas pessoas cansadas, parou numas letras que saiam enfurecidas desenhadas à caneta preta, à mão, pelo garoto sentado do banco caramelo vagão antigo.

“Letra mais linda”, nunca tinha visto uma dessas masculina, é coisa rara, antiquada, cada dia mais difícil deve ser sinal de boa sorte. Escrevia num caderno de notas folhas em bege, daquele ângulo olhando por cima podia observar a rapidez, o desenho dos enes, dos efes. Não dava para ler, uma palavra solta talvez e o garoto sentado, estudante de Letras, Filosofia, ou coisa parecida.

Poderia tentar. Só seria absurdo e inconveniente demais aproximar a cabeça até a distância certa, e também, a hipermetropia atrapalhava tudo. Dava para perceber que escrevia sobre algum assunto bem conhecido, eram muitas páginas num caderno com as folhas de um papel grosso, de boa qualidade, escritas todas à caneta preta. Todas em maiúscula.

Cabelos bagunçados. Ornamentava o rosto com um lindo par de óculos de grau, agasalho verde musgo e redigia nervosamente. Lembrou sua própria idade. Olhou as paredes, passavam pela janela. Na próxima estação foi embora e esqueceu para sempre.

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