Esperando o Carnaval

A vida segue assim, a cidade segue assim, as ruas vazias de carros para glória dos que aqui transitam, os shoppings, praças, supermercados e estações do metrô. Saudade de ver papel picado voar solto, saudade de confetes coloridas, de outros tempos. Nossa natureza tropical nos fez assim, mal encerraram-se as comemorações e já nos preparamos para o futuro e certo Carnaval, numa praia paradisíaca ou num bloquinho de rua e com as tais confetes coloridas.

E qual seria o motivo dessa melancolia? Li em algum lugar que ela faz parte da normalidade, é a angústia dos que escrevem. Esse buraco, espaço vazio, solidão que não vai embora. E o autor, esse que dizia ser tudo muito natural, esse que esqueci por completo o nome, dizia ainda sentir um certo orgulho de sua própria incompletude. Nunca gozei desse orgulho, mas já passei da fase de acreditar que alguma pessoa possa mudar isso. Preencher algo que nem mesmo consigo explicar exatamente.

É mais ou menos a analogia do restaurante japonês: muito mais fácil o Itaquerão ficar pronto em tempo recorde que encontrar um indivíduo do gênero masculino para dividir a conta do sushi. Até o garçom já acostumou, sempre apareço por lá com uma revista ou um pocket book e sem nenhuma interferência masculina ao mergulhar o salmão no molhinho. Melhor assim. Uso esse tempo para ler e observar os casais. Dia desses presenciei uma deselegante discussão entre a garota evangélica e um oriental católico, num volume bem acima da música ambiente. Não pretendo entrar no mérito religioso, mas não parava de me perguntar, por que ele chamou ela para sair?

Esse restaurante japonês é bem obscuro  (e essa é uma das melhores qualidades), serve Norteña, transmite todas as séries do brasileirão e o compeanato UFC, seja lá o que for isso. Mesmo assim, só uma vez consegui arrastar uma amiga para o local. É a irredutibilidade do indivíduo, impossibilidade de abrir mão do espaço individual, segundo Hegel.

Nesses tempos mornos, pelo menos companhia para tomar outras cervejas nunca falta, nem esperança de encontrar alguma oportunidade de mochilagem pelas praias e montanhas. Por falar nisso, antes mesmo da semana de folia carnavalesca ainda teremos um feriado, o aniversário da cidade.

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