sobre o que precede o futebol

Recebe o afeto que se encerra em nosso peito varonil, assim eu cantava, por obrigação, no teatro da escola que habita minhas memórias, onde foi possível aprender regras de etiqueta em desuso como: jamais aplaudir um dos hinos nacionais. Existem muitos hinos. Conforme espera-se que os bons nacionalistas saibam.

Talvez esse teatro, com seus ares subversivos, coxias e cortinas já não exista mais. Não na forma como eu me lembro dele, agora que já avançam as minhas mechas grisalhas. Com cadeiras dobráveis de madeira escura. O que ficou é a lembrança das broncas que levei, quando, incauta, aplaudia o hino nacional. Costumo pensar nisso enquanto observo as pessoas felizes, emocionadas, aplaudirem a música antes dos jogos da Copa da Mundo. Aplaudiria com gosto se estivesse ali, certamente.

Sou à favor de cantarem novas, outras, recentes músicas nos intervalos. O melhor de ter aprendido a obscura canção foi conhecer o Varonil. Anos depois, o filho da minha vizinha, pouco estudada e encantada com a palavra desconhecida batizou o menino com o nome Varonil. Palavra, por sinal, que podia ser substituída pois temos uma versão feminina e uma masculina do Hino à Bandeira.

21 de fevereiro
Não quero mais a fúria da verdade. Entro na sapataria popular. Chove por detrás. Gatos amarelos circulando no fundo. Abomino Baudelaire querido, mas procuro na vitrine um modelo brutal. Fica boazinha, dor; sábia como deve ser, não tão generosa, não. Recebe o afeto que se encerra no meu peito. Me calço decidida onde os gatos fazem que me amam, juvenis, reais. Antes era 36, gata borralheira, pé ante pé, pequeno polegar, pagar na caixa, receber na frente. Minha dor. Me dá a mão, vem por aqui, longe deles. Escuta, querida, escuta. A marcha desta noite se debruça sobre os anos deste pulso. Belo belo. Tenho tudo que fere. As alemãs marchando que nem homem. As cenas mais belas do romance o autor não soube comentar. Não me deixa agora, fera.

Ana Cristina César   

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ao relento

difícil saber o que nos espera. o futuro é agora, dizem os mais inseridos nestes tempos acelerados em que vivemos. a constatação, que poderia ser dita no final se fabulasse, mas vou dizer agora, é que a todos deveria ser dado o direito de sonhar. o mundo parece um lugar hostil.

ontem, uma moça jovem, vinte e poucos, foi expulsa por seus ‘amigos’ de república porque não tinha como pagar as contas e dormiu na calçada da avenida Liberdade. compartilhou o mesmo chão de concreto a céu aberto com moradores de rua, craqueiros, que costumeiramente dormem ao lado do supermercado, perto da banca de jornal, onde existe um vendedor ambulante às vezes, que ganha a vida revendendo meias de tecido acrílico, pilhas e tranqueiras.

disseram que ela viera do Paraná e pedia dinheiro para voltar. chamou atenção dos policiais pela boa aparência, não demorou a se prontificaram a levá-la para assistência social. não sei se ela merece piedade maior, por ser cria da classe média, por não ser usuária de crack, apenas uma desempregada; mesmo assim, é assustador imaginar o mundo da garota destruído. talvez ela tenha bebido para esquecer a tragédia pessoal e acorde às duas da tarde com hematomas desconhecidos. como quando bebemos e nos estabacamos. é fácil esquecer a diversidade de situações e destinos, focar apenas em si.

por mais inusitado que seja, novidade não é. lembro de outro garoto todo bem arrumado esmolando na região da praça Dom José Gaspar, vinte e poucos, óculos de marca famosa, alguns meses atrás. também de uma atriz até conhecida que fazia faxina para conseguir completar o grana do aluguel. São Paulo é uma cidade cara e cruel, que enlouquece, ilude pessoas.

vagar pelas ruas

Gosto do silêncio interior, de ouvir a intuição, os pensamentos mais sentidos. Andar por aquelas ruas é como acessar um trecho da memória. Era como se, ao lembrar, falar de um lugar abstrato, mas está igualzinho. Não saber do que se trata e sentir falta mesmo assim. As coisas como deveriam ter sido, desde sempre. Possibilidade de realizar sonhos.

diário emocional, 2018

my dear

Chove a cântaros. Daqui de dentro penso sem parar nos gatos pingados. Mãos e pés frios sob controle. Notícias imprecisas, fique sabendo. É de propósito? Medo de dar bandeira?Ouça muito Roberto: Quase chamei você, mas olhei para mim mesmo etc. Já tirei as letras que você pediu.

O dia foi laminha. Célia disse: o que importa é a carreira, não a vida. Contradição difícil. A vida parece laminha e a carreira é um narciso em flor. O que escrevi em fevereiro é verdade, mas vem junto drama de desocupado. Agora fiquei ocupadíssima, ao sabor dos humores, natureza chique, disposição ambígua (signo de gêmeos).

Penso pouco no Thomas. Passou o frio dos primeiros dias. Depois desgosto: dele, do pau dele, da política dele, do violão dele. Mas não tenho mexido no assunto. Entrei de férias. Tenho medo que o balanço acabe. O Thomas de hoje é muito mais velo do que eu, não liga mais, estuda, milita e faz amor na sua Martinica de longos peitos e dentes perfilados, tanta perfeição.

trecho editado de A Teus Pés, Ana Cristina César

Conforto emocional

Eu nasci dia 24, em agosto, há mais de três décadas. Sempre escrevi diários. O primeiro nem tenho recordação exata, talvez com oito anos. Então, a partir dos nove, comecei a levar à sério; registrava sequência de dias, brincadeiras, amigos, histórias de escola, dos vizinhos. Foi assim até os treze. Entre canetas coloridas e páginas numeradas pela data, por ano, com colagem de papel de bala, embalagem de picolé que eu gostava, adesivos fofos. Não foi difícil notar, era preciso que acontecesse algo fora do comum para o texto ficar bom. Um dia briguei com minha mãe e rasguei tudo. Acredito que devo ter escrito sobre algo que envolvia beijo na boca.

trecho do diário emocional, dezembro 2015.

 

Policarpo

Logo na saída, Antunes recebia os cumprimentos dos amigos, um grupo de mulheres comentava “Gostei muito”, a amiga responde “Amei, amei, amei, amei”, depois de alguns segundos de silêncio, para encerrar a euforia a primeira diz “Que final triste!”. Este burburinho intenso esclarece se tratar de um relato de outra época. Onde as pessoas sentiam-se de certa forma enfeitiçadas por determinadas montagens teatrais e próximas o suficiente do diretor e dos atores para conversar após a apresentação.

Em particular, o que chamou a atenção foram as inúmeras trocas de figurino, a agilidade com que todos conseguem realizar essa coreografia acelerada, precisa. A maior parte dos atores parecia nervosa, o que é absolutamente natural e perdoável, por ser o primeiro dia. O que incomodou de verdade foi a expressão de monotonia de alguns atores nas suas interpretações fazendo parecer repetitivas algumas passagens. Por se tratar de uma peça realizada dentro do método antunes, portanto menos dinâmica que as montagens experimentais contemporâneas, mais longa, essa sensação acaba por ser um dos riscos que a proposta está sujeita a enfrentar.

Muitas técnicas se misturam no palco, inclusive sapateado, sendo que a sequência do hino nacional no dia da estreia foi ovacionada, aplauso merecido, em cena aberta, tão raro de se ver. O ponto forte e positivo da peça é um viés caricatural engraçado, ele foge aos tons dramáticos do universo rodriguiano com o qual o diretor havia trabalhado nas montagens anteriores.

A cena mais deliciosa é a do tango onde duas personagens, uma delas de vestido vermelho curto, atravessam o palco dançando, sem qualquer conexão com o enredo, é do nada mesmo que surgem. Talvez na intenção de relativizar a seriedade da peça. Abono ser a melhor parte.

caderno velho de anotações, março 2010.