correspondências

Oi, Gu, está tudo bem.

Mais leve agora pois basta pensar nas festas, repelentes, necessidades de viagem. Prefiro essa comunicação mais calma, exceto quando se trata de alguma urgência editorial. O desenho que escolhi para tatuagem é uma concha em espiral, um caramujo-do-mar; talvez algum dia acrescente uma estrela-do-mar, ou uma água-viva para compor de forma não tão básica, uma paisagem marítima. Gosto das madrugadas, a cidade fica silenciosa, as demandas se acalmam. Também é verdade que acesso jornais todos os dias pela manhã, junto com o café, para saber se o mundo explodiu, se caíram aviões ou se o poeta morreu, por exemplo.Feliz por você conseguir acompanhar de perto suas meninas.

Sinto falta de ter um namorado. Mas está tão difícil, à beira do surreal. Leve-se em consideração, que não é raro ser trocada por mulheres de dezoito, dezessete anos. Nas camadas mais profundas da minha sensibilidade, imagino que talvez o meu destino seja ser só, por mais que eu me esforce, nunca consigo namorar, não é que eu não queira. Sem contar as inúmeras vezes que usaram meus sentimentos para me ferir. Eu sou romântica, chego a levar café da manhã na cama, comprar livros de presente, mas parece que isso não é importante.

Que 2017 seja um ano (duvido) que consiga romper esse padrão.

A Bravo! impressa escolheu papel pólen, ficou com ares de Piauí, mistura páginas em preto e branco às coloridas. A direção de arte ficou bonita e compartilho a impressão de trazer textos cansativos e alguns confusos. É um projeto do Almir de Freitas, antigo editor da Abril, com outras pessoas que não conheço. Agora mesmo, folheando, li dois textos sobre nudez na internet, a censura nas mídias sociais e hipocrisia,  surpreendentes.

Deixei pré-agendada a entrevista com o Nanini, consultei duas versões da peça, aguardo suas orientações, depois da virada de ano.Gostaria de conhecer, em um futuro distante, essas pessoas importantes da sua vida. Preservo certo cuidado para não invadir a privacidade de vocês. É uma possibilidade, uma hipótese, apenas.
Linda definição: se permitir ser habitante do lugar, ficar o máximo de tempo possível em uma mesma cidade, justamente para respirar tudo que um local respira. Minha esperança é que a melhor viagem seja a próxima, sempre. Conhecer Paris foi marcante, pela responsabilidade envolvida, dinheiro, a barreira do idioma. Nunca estive em Buenos Aires.Bom período de festas, comemorações, muita felicidade para sua família tão delicada e bela.
Adriana Salerno,
repórter, 29 de dezembro, 2016.

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Oi Dri, espero que esteja tudo bem com você.

Como meu fechamento é amanhã, não saí da frente do computador nesses últimos dias e só consegui responder os e-mails mais formais. Por isso deixei o seu para agora.

Bom saber que deu tudo certo com a tatuagem. Não sabia que dava enjoo com alguns tipos de comida. mas imagino eu que logo passe. Sei que são alguns dias de cicatrização, mas já devem ter acabado visto a data que você mandou o e-mail.

Sobre a Bravo!, não gostei do site deles, onde se reúne o projeto de publicar edições temáticas. Achei a leitura um pouco cansativa às vezes, justamente por não combinar tanto com o online. Sabia que de tantos em tantos meses poderia haver uma edição impressa, mas nem soube que ela foi lançada.

E a respeito das curiosidades, te respondo: viajar para mim é se permitir ser habitante do lugar, ficar o máximo de tempo possível numa única cidade, justamente para respirar tudo o que um local respira. Assim, não sei te dizer sobre a mais marcante. Ficar um mês em Paris foi tão incrível quanto um mês em Buenos Aires. São culturas diferentes, mas me senti pertencendo aos dois países, por exemplo. E não tenho momento certo para ler. Sou muito apaixonado por esposa e filha, então meu ritmo de leitura é muito pautado de acordo com os compromissos familiares do dia. Hoje, por exemplo, estou trabalhando neste horário. Antes de ontem trabalhei mais no horário “comercial”. Enfim, há variações.

E a sua viagem mais interessante? Como foi?

Aproveito para te desejar um ótimo período festas. Que 2017 seja próspero e iluminado!

Beijos,

Gustavo Ranieri,

editor, 22 de dezembro, 2016.

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homenagem póstuma

Intuí ele por perto. Sinto falta, até hoje; se eu viver até os cem anos sentirei falta dele até os cem anos, porque esse é o tipo de coisa que nos faz eternamente falta. Sem poder ser preenchido ou substituído. Sempre tive pena das pessoas que não conviveram com seus pais ou preferiam não ter convivido. Vi duas pessoas vestindo roupas iguais as dele nas ruas, no começo demorei a entender porque uma lembrança tão vívida surgia, assim, na minha frente. Ele tinha uma calça igual a essa, pensei. Depois vi uma das combinações que ele mais adorava fazer. Era bancário, vestia-se de acordo. Na época em que trabalhou era obrigatório usar gravata. Uma calça marrom num tom mais claro, mas que não chega a ser bege, quase cinza, essa cor, comum no vestuário masculino, combinada com uma camisa de listras muito finas e verticais. Igualzinho às peças de roupa que ele usava. Sem ficar de fora sequer a camisetinha branca básica que vai por baixo. Dá vontade de chorar ver e lembrar disso. Lembro das camisas dele. E lembro da forma como ele me abraçava quando tentava me acalmar. Nas minhas crises de choro. Nos meus acessos de raiva.

[…]

Trecho de crônica, agosto 2018.

sobre o que precede o futebol

Recebe o afeto que se encerra em nosso peito varonil, assim eu cantava, por obrigação, no teatro da escola que habita minhas memórias, onde foi possível aprender regras de etiqueta em desuso como: jamais aplaudir um dos hinos nacionais. Existem muitos hinos. Conforme espera-se que os bons nacionalistas saibam.

Talvez esse teatro, com seus ares subversivos, coxias e cortinas já não exista mais. Não na forma como eu me lembro dele, agora que já avançam as minhas mechas grisalhas. Com cadeiras dobráveis de madeira escura. O que ficou é a lembrança das broncas que levei, quando, incauta, aplaudia o hino nacional. Costumo pensar nisso enquanto observo as pessoas felizes, emocionadas, aplaudirem a música antes dos jogos da Copa da Mundo. Aplaudiria com gosto se estivesse ali, certamente.

Sou à favor de cantarem novas, outras, recentes músicas nos intervalos. O melhor de ter aprendido a obscura canção foi conhecer o Varonil. Anos depois, o filho da minha vizinha, pouco estudada e encantada com a palavra desconhecida batizou o menino com o nome Varonil. Palavra, por sinal, que podia ser substituída pois temos uma versão feminina e uma masculina do Hino à Bandeira.

21 de fevereiro
Não quero mais a fúria da verdade. Entro na sapataria popular. Chove por detrás. Gatos amarelos circulando no fundo. Abomino Baudelaire querido, mas procuro na vitrine um modelo brutal. Fica boazinha, dor; sábia como deve ser, não tão generosa, não. Recebe o afeto que se encerra no meu peito. Me calço decidida onde os gatos fazem que me amam, juvenis, reais. Antes era 36, gata borralheira, pé ante pé, pequeno polegar, pagar na caixa, receber na frente. Minha dor. Me dá a mão, vem por aqui, longe deles. Escuta, querida, escuta. A marcha desta noite se debruça sobre os anos deste pulso. Belo belo. Tenho tudo que fere. As alemãs marchando que nem homem. As cenas mais belas do romance o autor não soube comentar. Não me deixa agora, fera.

Ana Cristina César   

ao relento

difícil saber o que nos espera. o futuro é agora, dizem os mais inseridos nestes tempos acelerados em que vivemos. a constatação, que poderia ser dita no final se fabulasse, mas vou dizer agora, é que a todos deveria ser dado o direito de sonhar. o mundo parece um lugar hostil.

ontem, uma moça jovem, vinte e poucos, foi expulsa por seus ‘amigos’ de república porque não tinha como pagar as contas e dormiu na calçada da avenida Liberdade. compartilhou o mesmo chão de concreto a céu aberto com moradores de rua, craqueiros, que costumeiramente dormem ao lado do supermercado, perto da banca de jornal, onde existe um vendedor ambulante às vezes, que ganha a vida revendendo meias de tecido acrílico, pilhas e tranqueiras.

disseram que ela viera do Paraná e pedia dinheiro para voltar. chamou atenção dos policiais pela boa aparência, não demorou a se prontificaram a levá-la para assistência social. não sei se ela merece piedade maior, por ser cria da classe média, por não ser usuária de crack, apenas uma desempregada; mesmo assim, é assustador imaginar o mundo da garota destruído. talvez ela tenha bebido para esquecer a tragédia pessoal e acorde às duas da tarde com hematomas desconhecidos. como quando bebemos e nos estabacamos. é fácil esquecer a diversidade de situações e destinos, focar apenas em si.

por mais inusitado que seja, novidade não é. lembro de outro garoto todo bem arrumado esmolando na região da praça Dom José Gaspar, vinte e poucos, óculos de marca famosa, alguns meses atrás. também de uma atriz até conhecida que fazia faxina para conseguir completar o grana do aluguel. São Paulo é uma cidade cara e cruel, que enlouquece, ilude pessoas.

vagar pelas ruas

Gosto do silêncio interior, de ouvir a intuição, os pensamentos mais sentidos. Andar por aquelas ruas é como acessar um trecho da memória. Era como se, ao lembrar, falar de um lugar abstrato, mas está igualzinho. Não saber do que se trata e sentir falta mesmo assim. As coisas como deveriam ter sido, desde sempre. Possibilidade de realizar sonhos.

diário emocional, 2018

my dear

Chove a cântaros. Daqui de dentro penso sem parar nos gatos pingados. Mãos e pés frios sob controle. Notícias imprecisas, fique sabendo. É de propósito? Medo de dar bandeira?Ouça muito Roberto: Quase chamei você, mas olhei para mim mesmo etc. Já tirei as letras que você pediu.

O dia foi laminha. Célia disse: o que importa é a carreira, não a vida. Contradição difícil. A vida parece laminha e a carreira é um narciso em flor. O que escrevi em fevereiro é verdade, mas vem junto drama de desocupado. Agora fiquei ocupadíssima, ao sabor dos humores, natureza chique, disposição ambígua (signo de gêmeos).

Penso pouco no Thomas. Passou o frio dos primeiros dias. Depois desgosto: dele, do pau dele, da política dele, do violão dele. Mas não tenho mexido no assunto. Entrei de férias. Tenho medo que o balanço acabe. O Thomas de hoje é muito mais velo do que eu, não liga mais, estuda, milita e faz amor na sua Martinica de longos peitos e dentes perfilados, tanta perfeição.

trecho editado de A Teus Pés, Ana Cristina César